| Antroposofia e Universidade |
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Muita gente pensa na Idade Média como um período de trevas, de superstição, de ignorância e de intolerância religiosa. Nem tudo foi assim.
Justamente na Idade Média, no século XI, sendo mais preciso, surgiu a primeira Universidade. Uma invenção moderna, arrojada e tipicamente ocidental. Não se compara, em extensão, ao espírito das antigas academias gregas, nem aos centros culturais mouros. No período em que estavam sendo edificadas as grandes catedrais góticas, surge o embrião da primeira Universitas, a faculdade de medicina de Salermo, onde o aluno aprendia música, astronomia, letras, matemática, oratória e outras humanidades. Além disto, em Salermo, reuniam-se sumidades do pensamento cristão, do pensamento mouro e do pensamento judaico – uma convergência fantástica de saberes acima das barreiras ideológicas. Mas Salermo ainda era tutelada pela Igreja, apesar da abertura para saberes não católicos. Antes, a educação superior era ministrada dentro de mosteiros, sempre sob a tutela direta da Igreja. O conhecimento era mais unilateral e cerceado pelo magistério eclesiástico. O passo seguinte foi a escola de direito de Bolonha, que depois abriu outras faculdades, tornando-se, de fato, a primeira Universitas, leiga, sem a tutela da Igreja. O que era a Universitas medieval? O fator mais impressionante da idéia gótica de Universidade é a autonomia desta. Uma Universidade não seria vinculada nem à Igreja, nem ao Estado. Seria uma instituição independente de saber, aberta, totalmente regida por si própria, a partir de uma reitoria autônoma formada por um colégio de doutores e um rector. O saber não poderia ser direcionado, cerceado, nem pela política, nem pela religião, nem pelo dinheiro. As universidades aceitavam subvenções de príncipes e da Igreja sim, mas sem abrir mão de sua autonomia. Tinham como ideal a sua subsistência a partir do pagamento dos próprios alunos, que, inclusive, viviam dentro delas em abrigos onde recebiam alimentação e os recursos para o seu aprendizado. Assim, fundaram-se, ao longo dos séculos seguintes, as grandes universidades européias e, depois do século XVI, as universidades nas Américas. O espírito da Universitas gótica original seria o de um saber livre, onde o indivíduo inquiridor adquirisse condições de enriquecer sua alma de humanidades – o ideal germânico da Bildung (do auto-cultivo)- e, além disto, apreender os elementos necessários ao ofício escolhido: doutor em leis, doutor em medicina, doutor em filosofia etc..Dois elementos históricos, vejo eu, vieram, por assim, dizer, alterar um pouco esta perspectiva: o espírito dogmático materialista aos poucos substituiu o antigo espírito dogmático eclesiástico. Rudolf Steiner diz que este espírito materialista, embora necessário para a autonomização das ciências ocidentais em certo momento, entrou como um usurpador do espírito livre da Universitas, incorporou-se a esta, tomou posse desta. Assim, a Universidade tornou-se o centro de formação de saberes cerceados agora pelo espírito dogmático do cientificismo materialista e a antiga abertura universal para todas as formas de conhecimento e modelos de pensamento, incluindo o mitológico, a analogia, e a poesia, que foram banidos em nome de um “exatismo” unilateral. Outro elemento histórico ajudou a desviar o antigo espírito universitário, o capitalismo selvagem moderno. Este transformou o saber em mercadoria, cara às vezes. E surgiram, aos poucos, faculdades sustentadas e direcionadas para e pelo espírito mercantilista, onde o saber é mercadoria, pura e simplesmente. Por outro lado, nos países de terceiro mundo, como o Brasil, as universidades estatais, que têm o problema de um certo vínculo com as instituições políticas, enfrentam o sucateamento do ensino superior; e, enquanto isto, as universidades particulares, conforme o espírito de concorrência da economia de livre mercado onde “vence o mais bem aparelhado”, suprem melhor as necessidades materiais e didáticas de ensino de terceiro grau. Um outro elemento, entretanto, é preocupante e é visível para todo docente de terceiro grau: o progressivo decaimento do nível cognitivo dos alunos universitários, jovens despreparados para a vida como um todo, unidirecionados pelo espírito burguês do “cursinho”, que não tiveram antes um conhecimento livre e abrangente, pois este foi substituído por receitinhas para o vestibular; uma geração “televisiva” e mesmo apática de ideais e de sonhos utópicos, como deveria ser qualquer jovem. Urge que se faça uma universidade livre e rica para os jovens, para despertar o espírito sonolento desta juventude anestesiada pela aculturação do rock e pela alienação do Big Brother...O jovem está perdido, de alma faminta e cheio de dúvidas e de angústias...O jovem precisa ter sua alma alimentada por ideais, por arte, por belas proposições, pela admiração por algo grandioso e fundamental...A Universidade poderia ser a fonte disto. Rudolf Steiner considerava a antroposofia uma forma de resgatar algo bom do passado da Universitas que foi perdido, e de exorcizar este espírito usurpador que tomou conta do ensino superior. Para tanto, Steiner via em GOETHE a imagem de um indivíduo moderno, ocidental, portador de um modo de ver os fenômenos onde os sentidos, o pensamento, a poesia, a analogia, e outras formas de se tecer o conhecimento poderiam ser cultivados. Por exemplo, Goethe escreve o único tratado de ótica conhecido, contrapondo-se à teoria da luz de Isaac Newton, em forma literária - em prosa, mas com arroubos poéticos, e baseado na experiência subjetiva, sem desvincular esta do fenômeno da luz e da cor. Goethe também escreve um tratado sobre as leis da química sob a forma de um romance (“As Afinidades Eletivas”). E Goethe mostra, em sua obra sobre a metamorfose das plantas e sobre a metamorfose dos ossos, como a natureza tem intencionalidades, e como se pode vislumbrar um Conhecimento uno, livre, onde se encontram as necessidades UNIVERSAIS do espírito humano, sem cerceamentos ideológicos; onde poesia, beleza, filosofia, veneração, exatidão, objetividade e subjetividade se encontram sem fronteiras, sem limitações. Além disto, Goethe mostra o espírito do inconformismo e de livre criação do indivíduo que não aceita um sistema de pensamento e de cerceamento do saber. Steiner diz, em uma palestra em Dornach, em 1920: “Nossa época é terrivelmente necessitada de goetheanismo. Goethe é um Universitas Litteratum – uma expressão acadêmica antiga (um conhecedor universalista) – a universidade atual ocupa ilegalmente um trono. O goetheanismo pode restaurar a universidade. Goethe é o Copérnico e o Kepler do mundo orgânico, e não é percebido” (GA 185). Dr. Wesley Aragão de Moraes: médico clínico antroposófico, formado há 23 anos pela UFJF; mestre em Ciência da Religião pela UFJF; doutor em antropologia pela UFRJ; coordenador e docente de cursos de formação e diretor cultural do GAIA, Rio de Janeiro, Brasil. |
