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Um Conto de Fadas Revela a Alma

Os contos de fada, as cosmogonias e mitologias e os conteúdos dos livros sagrados como o Velho Testamento pertencem ao acervo de tradição oral da humanidade e revelam a sua consciência imaginativa que antecede o advento do pensar lógico e racional.

Tais conteúdos apresentam um enredo dramático com paisagens, personagens, cores e formas que atuam no nível inconsciente apresentando ao consciente humano analogias significativas como as várias imagens em um caleidoscópio.

Na vivência imaginativa do conto Rosa Branca e Rosa Vermelha apresenta-se o processo de formação do ser humano do nascimento aos 21 anos de idade. A analogia busca amplificar os conceitos sobre o ser humano, fundamentados na Antroposofia.

ROSA-BRANCA E ROSA-VERMELHA[1]

Uma pobre viúva vivia isolada numa pequena cabana. Em seu jardim havia duas roseiras: em uma florescia rosas brancas, e, na outra, rosas vermelhas. A mulher tinha duas filhas que se pareciam com as roseiras: uma chamava-se Rosa-Branca; a outra Rosa Vermelha. As crianças eram obedientes e trabalhadeiras. Rosa-Branca era mais séria e mais meiga que a irmã. Rosa Vermelha gostava de correr pelos campo: Rosa-Branca preferia ficar em casa ajudando a mãe. As duas crianças amavam-se muito e quando saíam juntas, andavam de mãos dadas...

Elas passeavam sozinhas na floresta, colhendo amoras. Os animais não lhes faziam mal nenhum e se aproximavam delas sem temor. Nunca lhes acontecia mal algum. Se a noite as surpreendia na floresta elas se deitavam na relva e dormiam.

Uma vez, passaram a noite na floresta e, quando a aurora as despertou, viram uma linda criança, toda vestida de branco sentada ao seu lado. A criança levantou-se, olhou com carinho para elas e desapareceu na floresta.

Então viram que tinham estado deitadas à beira de um precipício e teriam caído nele se houvessem avançado mais dois passos na escuridão. Contaram o fato à mãe que lhes disse ser provavelmente o anjo da guarda que vigia as crianças.

As meninas mantinham a choupana da mãe bem limpa. Durante o verão, era Rosa-Vermelha que tratava dos arranjos da casa e no inverno, era Rosa-Branca. Á noite, quando a neve caía branquinha e macia, Rosa-Branca fechava os ferrolhos da porta.

À noite sentavam perto da lareira e enquanto a mãe lia em voz alta num grande livro as mãozinhas das meninas fiavam; aos pés delas, deitava-se um cordeirinho, e atrás, em cima do poleiro, uma pomba muito branca dormia com a cabeça entre as asas.

Uma noite, quando estavam assim tranqüilamente, ouviram bater à porta e a mãe mandou Rosa-Vermelha abrir a porta pois devia ser alguém procurando abrigo.

Ao abrir a porta Rosa-Vermelha ... um enorme urso que meteu a grande cabeça ... através da abertura da porta. Ela soltou um grito e correu para o quarto; o cordeirinho pôs-se a balir, a pomba a voar, e Rosa-Branca se escondeu atrás da cama da mãe.

-Não tenham medo, - falou o urso - Estou gelado me deixem aquecer perto da lareira.

-Pobre animal, disse a mãe, - chega perto do fogo, mas cuidado para não se queimar.

Então a mãe chamou as meninas. Elas voltaram e, pouco a pouco, aproximaram-se o cordeirinho e a pomba, sem medo.

-Meninas, disse o urso –por favor tirem a neve que tenho nas costas!

As meninas pegaram a vassoura e limparam o seu pelo; em seguida, o urso estendeu-se diante do fogo, grunhindo satisfeito. Não demorou muito, ela puseram-se a brincar com ele. Puxavam o pelo com as mãos, trepavam nas suas costas ou batiam nele com uma varinha de nogueira. Ele só reclamou quando elas se excederam.

- Rosa-Vermelha e Rosa-Branca, ele disse – tratem o pretendente como se deve!

Quando chegou a hora de dormir e as meninas foram deitar-se, a mãe disse ao urso:

-Fique perto do fogo e você estará ao abrigo do frio e do mau tempo.

Logo que amanheceu, as meninas abriram a porta ao urso e ele se foi para a floresta, trotando sobre a neve. A partir desse dia, ele voltou todas as noites, à mesma hora. Estendia-se diante do fogo e elas brincavam com ele.

Chega a primavera e tudo se cobre de verde, então o urso disse a Rosa-Branca que tinha que ir embora e não voltaria durante o verão, pois tinha que proteger seus tesouros dos maus anões. No inverno eles permaneciam nas tocas; mas quando o sol derrete a neve eles saem e roubam tudo o que podem; escondendo em suas cavernas.

Ela ficou muito triste e quando abriu a porta para o urso passar, ele esfolou a pele na lingüeta da fechadura, e Rosa-Branca viu o brilho de ouro, mas não teve certeza.

Algum tempo depois, a mãe mandou as meninas apanharem gravetos na floresta. Lá chegando, viram uma árvore caída ao solo, e no tronco, entre a relva, qualquer coisa se agitava, pulando de um lado para o outro. Ao se aproximaram, viram um anão de rosto acinzentado, envelhecido e enrugado, com uma barba branca muito comprida. A ponta da barba estava presa numa fenda da árvore. Ao vê-lo Rosa-Vermelha perguntou como sua barba ficara presa na árbores.

-Sua estúpida!- respondeu o anão; - eu quis partir esta árvore para ter lenha miúda na cozinha, porque, com pedaços grandes, o pouco que pomos nas panelas queima logo; nós não precisamos de tanta comida como vocês, gente estúpida e glutona! Tinha introduzido a minha cunha no tronco, mas a maldita madeira é muito lisa, a cunha saltou e a árvore fechou-se tão depressa prendendo minha linda barba. Riem suas bobonas!

As meninas fizeram muitas força para livrar o homenzinho, mas não conseguiram desprender a barba, então Rosa-Vermelha disse que precisariam de ajuda.

-Suas burras, - estrilou o anão, - Chamar mais gente? Não podem ter uma idéia melhor?

-Não fique nervoso, - disse Rosa-Branca. - Vou resolver isto.

Tirou do bolso uma tesourinha e cortou a ponta da barba. Ao se ver livre, o anão agarrou um saco cheio de ouro oculto nas raízes da árvore e, pôs às costas, sem agradecer, saiu resmungando:

-Suas brutas! Cortaram-me a ponta de minha barba! O diabo que vos recompense!

Passado algum tempo, Rosa-Branca e Rosa-Vermelha foram pescar peixes para o jantar. Quando chegaram perto do rio, viram uma espécie de gafanhoto grande saltitando à beira d’água. Correram até lá e reconheceram o anão.

Rosa-Vermelha perguntou; - você não quer se jogar na água?

-Não sou tão burro! - gritou o anão. – É esse maldito peixe que me arrasta para a água.

Para pescar o anão lançou a linha, mas o vento enroscou sua barba na linha e, nesse momento, um grande peixe mordeu a isca do anzol e suas forças não eram suficientes para mantê-lo fora da água, mesmo agarrando-se aos ramos.

As meninas seguraram o anão para desembaraçar sua barba, mas foi necessário usar mais uma vez à tesourinha e cortar outro pedaço da barba. Ele gritou, zangado:

-Isso é modo, suas patas chocas, de desfigurar a cara de uma pessoa? Já não bastava cortarem minha barba da outra vez, agora cortaram a parte mais bonita!

Pegando um saco de pérolas, escondido numa touceira ele sumiu atrás de uma pedra.

Pouco tempo depois, a mãe mandou as meninas à cidade comprar linha, agulhas, cordões e fitas. O caminho serpeava por uma planície de rochedos. Lá viram um grande pássaro pairando no ar, que depois de descrever um círculo cada vez menor, foi descendo, até cair sobre um rochedo não muito distante. No mesmo instante ouviram um grito. Correram e viram com horror que a águia segurava nas garras o seu velho conhecido, o anão, e se dispunha a carregá-lo pelos ares. As meninas seguraram o anão com todas as forças, e puxa de cá e puxa de lá, por fim a águia teve de largar a presa. Quando o anão voltou a si do susto, gritou-lhes com voz esganiçada:

-Não podem me tratar com mais cuidado? Estragaram o meu casaco! Suas, palermas!

Depois pegou um saco cheio de pedras preciosas e deslizou para dentro da toca, entre os rochedos.Sem se incomodar com sua ingratidão, elas foram pra cidade.

Ao regressarem pela floresta, elas surpreenderam o anão, que tinha despejado o saco de pedras preciosas num lugar limpinho. Os raios do sol caiam sobre as pedras, fazendo-as brilhar tanto, que as meninas, deslumbradas, pararam para as admirar.

-Que fazem aí de boca aberta? - berrou o anão; seu rosto acinzentado estava vermelho de raiva. Ia continuar xingando, quando se ouviu um grunhido surdo e, um enorme urso negro saiu da floresta.

O anão deu um pulo de medo, mas não teve tempo de alcançar um esconderijo: o urso cortou-lhe o caminho. Então ele implorou:

-Querido urso eu lhe darei todos os meus tesouros! Deixe eu viver! Você nem me sentirá entre seus dentes. Pegue essas duas meninas gordinhas para o seu estômago!

O urso não ouviu suas palavras; deu-lhe uma forte patada que o estendeu no chão.

As meninas fugiram, mas o urso chamou os seus nomes e elas reconheceram a sua voz e pararam. Quando o urso as alcançou, caiu a sua pele e, surgiu um formoso rapaz, todo vestido de trajes dourados.

-Sou filho de poderoso rei, - disse ele - este anão mau me condenou a vagar pela floresta sob a forma um urso depois de ter roubado os meus tesouros e só com sua morte eu poderia me libertar.

Rosa-Branca, pouco tempo depois, casou com o príncipe e Rosa-Vermelha com seu irmão. Partilharam, entre todos, os tesouros que o anão tinha acumulado na caverna e a velha mãe viveu ainda muitos anos tranqüila e feliz junto de suas queridas filhas e as duas roseiras que foram plantadas diante da janela dos seus aposentos. E todos os anos elas continuaram a dar as mais lindas rosas brancas e vermelhas.[2] 

 

Uma pobre viúva vivia isolada numa pequena cabana...suas filhas...passeavam sozinhas na floresta. O ser humano vive em dois mundos: um mundo material, físico ...cabana... e outro espiritual ...floresta.

O indivíduo sofre, no desenvolvimento corpóreo, a atuação de uma força genética que vem do passado, da mãe ...viúva... e, na evolução espiritual, atua uma força biográfica orientada por um Eu ...o príncipe... considerado elemento superior ao eu consciente.

A mulher tinha duas filhas ... uma chamava-se Rosa Branca e a outra Rosa Vermelha. As duas crianças eram piedosas, obedientes e trabalhadeiras...

A vida humana se expressa nas polaridades definidas por Friedrich Schiller[3] como impulso da forma - o princípio individual e formativo que se origina no cerne da entidade humana a partir do eu - Rosa Branca - e o impulso da matéria - originário dos processos instintivos ou vitais - Rosa Vermelha.

O impulso da forma que se origina no eu ...Rosa-Branca era mais séria e mais meiga que a irmã... permite a cada um reconhecer a si mesmo como ser humano, organizando as percepções internas e externas e orientando as ações conscientes. Se houver o predomínio da forma representada no físico pelo cérebro, espinha dorsal e nervos o ser humano irá orientar sua vida preferencialmente pelo pensar.

O impulso da matéria relaciona-se com os processos naturais da força do sangue e do metabólico-motor ...Rosa-Vermelha gostava de correr pelos campos... Se predominar esse impulso, o ser humano poderá ser escravo de sua vitalidade e de suas paixões.

A alma humana ou psique vive entre esses dois pólos. Os conteúdos originários dos impulsos do corpo (matéria) e do espírito (forma), são vivenciados ao se encontrarem e se expressarem na alma humana “in bruto” pelo príncipe encantado em urso.

As duas crianças amavam-se muito, tanto que, quando saíam juntas, andavam de mãos dadas... Esses aspectos da alma do homem representados pela forma e pela matéria vivem juntos, pois não há forma sem matéria, ou matéria sem forma.

O desenvolvimento do ser humano acontece entre os impulsos originários do eu em oposição aos processos vitais, cujo equilíbrio dá nascedouro ao impulso lúdico ...elas passeavam...na floresta...e puseram-se a brincar com o urso... que se revela no brincar da criança, depois em seu vivenciar artístico e, em seus ideais.

A harmonia da formação do ser humano se revela num processo lúdico como a brincadeira, o jogo e a vivência artística, preparando para a autonomia e responsabilidade. O impulso lúdico representa o equilíbrio entre contenção e atividade, inspiração e expiração, responsabilidade e liberdade que dará nascimento ao homem livre e criador.

A criança pequena vive num estado de ingenuidade e confiança em relação ao mundo, acolhendo sem resistência o que lhe é oferecido. Nas vivências dos primeiros sete anos de vida, setênio, a criança exprime uma total entrega e, ao encontrar proteção em seu meio circundante desenvolve confiança na vida ...um saco cheio de ouro...

Uma vez,...[as meninas] ...passaram a noite na floresta e, quando a aurora as despertou, viram uma linda criança, vestida de branco resplandecente, sentada ao lado delas. A criança levantou-se e olhou, carinhosamente...não proferiu palavra e desapareceu...na floresta...elas tinham estado deitadas à beira de um precipício...a mãe lhes explicou ser provavelmente o anjo da guarda que vigia as crianças...

No âmbito geral da consciência, a camada inconsciente e mais profunda do ser humano adulto se revela estruturada no primeiro setênio, a do predomínio do desenvolvimento fisiológico, que estava submetida aos processos vitais e ao mundo circundante, mas protegido pelos mundos espirituais ...tinham estado deitadas à beira de um precipício e nele teriam caído...o anjo da guarda vigia as crianças... Tais experiências são guardadas no sono profundo e sem sonhos.

Na fase dos sete aos quatorze anos, o paraíso começa a ser invadido pelas forças da alma ...um enorme urso meteu a grande cabeça...através da abertura da porta. Predomínio de uma consciência de sonho em que as energias sofrem uma metamorfose estruturando a vida de sentimentos que permanece no adulto na camada semiconsciente.

As dificuldades e os perigos, inadequações durante o desenvolvimento do corpo físico, da alma e da consciência rondam na forma de ...maus anões... As conquistas podem perder-se...eles...roubam tudo o que podem...um saco cheio de ouro do primeiro setênio, ...um saco de pérolas do segundo e ...um saco cheio de pedras preciosas do terceiro.

Num desenvolvimento integrado e harmônico, os fatores que subsidiam a estrutura de um pensar claro residem na tranqüilidade para a elaboração das impressões sensórias em conquistas efetivas da percepção e, num ensino que reconheça o momento específico da criança, não privilegiando um processo de aprendizado acelerado ou conteúdos abstratos. Se estes aspectos não forem respeitados poderá acontecer o roubo do ouro, o que há de mais profundo na terra e mais estrutural no ser humano, seu corpo físico.

O pensar em imagens conceituais verdadeiras se desenvolve no segundo setênio. A aprendizagem deve respeitar a capacidade da criança apreender o mundo por meio de conteúdos imaginativos do contrário ...o anão rouba o saco de pérolas.

Na terceira etapa, o ser humano se confronta com o mundo com o predomínio da consciência de vigília, o qual lhe deverá ser apresentado por meio de idéias claras. A vontade de expressar seu eu em ações envolve-se de uma aura de forte idealização ...suas pedras preciosas... O mundo exterior quer ser conquistado e transformado nessa fase.

O deslumbramento pelas conquistas efetuadas ao longo do caminho fizeram com que ...as meninas deslumbradas ...parassem para admirar as pedras preciosas...A consciência de si mesmo torna-se presente na confirmação do conhecimento, da sensibilidade, das habilidades e capacidades conquistadas, como também, do medo diante das dificuldades e dos limites a serem transpostos.

As meninas fugiram, mas o urso chamou e elas reconheceram a sua voz e pararam. Quando o urso as alcançou, caiu a sua pele e, surgiu um formoso rapaz, todo vestido de trajes dourados.

-Sou filho de poderoso rei, - disse ele - este anão mau me condenou a vagar pela floresta sob a forma um urso depois de ter roubado os meus tesouros e só com sua morte eu poderia me libertar.

Rosa-Branca ...casou com o príncipe e Rosa-Vermelha com seu irmão. Partilharam, ... os tesouros e a velha mãe viveu ainda muitos anos tranqüila e feliz...

O ser humano se destaca de toda a natureza. Conscientiza-se de si mesmo como ser, ao se autodenominar eu. Fortalece esse ser ao vivenciar a força do eu no cerne de sua entidade. De criatura passa a criador, realizando o seu eu no mundo. Após o nascimento do eu e de sua vivência, surge o desejo de realização e transformação do mundo. A consciência, a vivência e a realização revelam uma instância superior do ser humano, sua expressão espiritual, que se apresenta como força biográfica e revela a atuação de seu Eu ou si-mesmo definido no  desenvolvimento da criança na direção de realizar-se como adulto.



[1] Em negrito os conteúdos do conto trabalhados de forma analógica com os fundamentos antroposóficos.

[2] Recontado pela autora a partir de Contos e Lendas dos Irmãos Grimm. São Paulo: Edigraf, 1963, vol VI

[3] Educação Estética do Homem numa série de cartas. São Paulo: Iluminuras,